O estoicismo é uma filosofia bem antiga, fundada por volta de 300 a.C., na Grécia. Ela traz ideias que promovem a racionalidade diante da imprevisibilidade da vida.
Embora antiga, essa filosofia se mostra muito atual. Muitas pessoas buscam aplicá-la em suas vidas, sobretudo os homens.
Muitos adotam essa filosofia em busca de força, controle emocional e autonomia. Contudo, há um problema: muitos homens não entenderam o que significa ser estoico de fato.
Isso é facilmente percebido nas comunidades masculinistas, conhecidas por seus discursos, diretos ou indiretos, contra mulheres e outros grupos.
Dentro dessas comunidades, o que deveria ser uma busca por virtudes e sabedoria torna-se um manual tático. Conceitos são mal interpretados, ou ressignificados, para justificar um jogo de poder e mascarar inseguranças.
O que (de verdade) é estoicismo
O estoicismo nos ensina a usar a racionalidade para lidar com a imprevisibilidade da vida. Uma das bases disso é o entendimento de que nem tudo está sob nosso controle.
A partir disso, devemos usar a razão para lidar com as emoções, para evitar vícios e cultivar virtudes.
Os estoicos encaram a vida com apatia. A palavra deriva de Apatheia, que significa ausência de paixão. No entanto, essa paixão refere-se a um estado perturbado da alma, a uma emoção controladora e violenta.
Essa apatia ocorre quando entendemos que existem coisas que estão, ou não, sob nosso controle.
Não se trata de rejeitar emoções, mas saber controlá-las. Nem é sobre ser passivo diante do mundo, mas saber diferenciar até onde podemos agir.
Para os estoicos, devemos nos preocupar menos com o que não podemos controlar. Sêneca disse:
“Nós sofremos mais na imaginação que na realidade”
Não podemos controlar certos acontecimentos. Então, devemos ser racionais para lidar com nossas reações e emoções diante do inevitável.
Apesar de não controlarmos muitas coisas, podemos decidir como reagimos. Por exemplo, não temos controle sobre as ações de outra pessoa, mas podemos evitar a raiva diante delas.
O objetivo final do estoicismo é alcançar uma vida boa e plena. A base para isso é a virtuosidade, constituída por quatro pilares:
- Sabedoria: entender os eventos do mundo de forma lógica e calma
- Justiça: agir eticamente com os outros, reconhecendo que fazemos parte da mesma comunidade humana
- Coragem: agir corretamente apesar do medo, da dor ou da pressão
- Moderação: autocontrole e equilíbrio dos desejos
Por que muitos homens se apegam ao estoicismo
O antigo modelo de masculinidade está em colapso, e muitos homens não sabem lidar com essa nova realidade. O resultado é uma crise silenciosa e uma crescente insegurança.
Essa crise e insegurança são sintomas do próprio conceito de masculinidade que aprendemos desde a infância.
No entanto, muitos homens ainda insistem em se agarrar a esse conceito ultrapassado. Muito disso se deve ao medo de perder status, reconhecimento e sentido.
Esse padrão é muito observado dentro das comunidades masculinistas, chamadas de manosfera. O termo refere-se a sites, blogs e fóruns on-line que promovem masculinidade tóxica e misoginia.
Para lidar com essa crise, a manosfera busca respostas simples para questões complexas. Em uma rápida olhada, o estoicismo parece oferecer um bom suporte.
Para muitos, ser estoico significa manter-se inabalável, o que atrai quem ainda se apega a conceitos ultrapassados de masculinidade.
Veja também: Por que os homens estão tão inseguros e o que a masculinidade tem a ver com isso?
O estoicismo (distorcido) da manosfera
O problema não é o estoicismo, mas a ideia distorcida que se tem dessa filosofia. É aí que mora o problema. Muitos homens não compreendem ou ressignificam o estoicismo para justificar comportamentos tóxicos.
Vimos que apatia não consiste em rejeitar emoções, mas saber controlá-las. No entanto, a manosfera entende que a apatia aqui é frieza emocional. É aquele velho papo de que homem não deve demonstrar certos sentimentos, pois eles podem revelar fraqueza.
O estoicismo fala sobre distinção entre o que depende de nós e o que não depende. Como mencionei, não podemos controlar o outro, mas podemos controlar nossas reações. Muitos homens transformam essa ideia em algo diferente. O pensamento passa a ser: se não controlo o outro, não devo me importar com ele. Com base nisso, surge um comportamento frio e o distanciamento emocional.
O problema não é o estoicismo, mas a ideia distorcida que se tem dessa filosofia.
No estoicismo, a virtude é o bem supremo. Isso independe de status, riqueza ou sucesso. Por outro lado, muitos homens acham que ser estoico significa ter status como valor.
Relacionamentos fazem parte da natureza humana. No entanto, devemos agir de forma racional nas relações. Podemos nos apegar a alguém, mas sem que isso se torne possessivo. Amar não é negar a razão. Contudo, muitos homens veem o amor como risco ou fraqueza. Por isso, mulheres são tratadas como ameaça ao autocontrole.
Note que essa interpretação do estoicismo feita pela manosfera não faz sentido. E se pararmos para pensar um pouco mais, percebemos que parte disso é irracional. Ou seja, algo que vai totalmente contra a racionalidade defendida pelos estoicos.
As consequências dessa leitura distorcida
Essa apropriação do estoicismo traz alguns problemas. Ela produz efeitos reais e profundos na vida de quem a abraça e nas pessoas ao seu redor.
Quando uma filosofia de virtude e conexão é transformada em uma cartilha de desconfiança e desempenho, as consequências são previsíveis e destroem exatamente o que o estoicismo pretende construir.
1. Endurecimento emocional x força emocional
A versão distorcida promove um endurecimento, uma anestesia forçada para suprimir a sensibilidade.
O verdadeiro Estoicismo busca uma espécie de fortaleza: a capacidade de sentir plenamente, mas escolher não ser governado por reações impulsivas.
A fortaleza é um portão que controlamos, e o endurecimento, uma parede. O primeiro leva a relacionamentos mais conscientes; o segundo, ao isolamento.
Muitos homens veem o amor como risco ou fraqueza. Por isso, mulheres são tratadas como ameaça ao autocontrole.
2. Ressentimento disfarçado de autocontrole
Ao abraçar a visão de mundo que vê o outro (especialmente mulheres e “o sistema”) como hostil ou explorador, o homem que segue essa cartilha acaba nutrindo um profundo ressentimento.
No entanto, ele não o identifica assim, pois acredita que está vendo a realidade como ela é.
Na verdade, alimenta uma raiva passiva, enrustida sob a máscara da frieza racional. Isso corrói por dentro, transformando a busca por paz num estado de guerra silenciosa e permanente.
3. Dificuldade de vínculo e falta de empatia
Relacionamentos autênticos são construídos sobre vulnerabilidade mútua, confiança e a capacidade de se colocar no lugar do outro. No entanto, a manosfera enxerga isso como risco e sinal de fraqueza. A empatia é vista como uma espécie de falha.
O resultado é uma forte dificuldade de conexão. O indivíduo pode até conseguir interações superficiais ou baseadas em poder, mas fica incapaz de construir vínculos profundos de confiança e afeto.
No fim, essa postura gera solidão.
4. Confusão entre força e negação da humanidade
Para demonstrar força, muitos homens negam ou suprimem certos sentimentos, como o medo. No entanto, isso não é força, nem é algo defendido pelo estoicismo.
O verdadeiro estoicismo ensina a coragem de ser humano em sua plenitude. Medos, desejos e afetos fazem parte da vida. Apenas devemos lidar com tais sentimentos de forma racional.
A força está em integrar, não em anular. Negar a própria humanidade não torna ninguém mais estoico; torna-o apenas rígido, frágil por dentro e mais distante do verdadeiro sentido do estoicismo.
5. A prisão da própria persona
Em última análise, a maior consequência é que o indivíduo se torna prisioneiro da própria persona que criou. Ele se afasta do mundo real, complexo e relacional, para habitar um mundo interno de regras rígidas e desconfiança.
Em vez de encontrar a libertação prometida pelo estoicismo — a liberdade interior que vem do domínio de si e da aceitação do que não se pode controlar —, ele constrói uma cela de “controle” ilusório sobre os outros e de negação de si.
O verdadeiro estoicismo nos ensina a usar a racionalidade para lidar com as emoções e cultivar virtudes. Não se trata de rejeitar sentimentos, mas de saber controlá-los. Muito menos sobre não criar vínculos pessoais, mas sobre evitar apego descontrolado.
A interpretação equivocada e a ressignificação que muitos homens fazem sobre o estoicismo é perigoso. Isso porque, serve apenas para acentuar a crise que muitos homens enfrentam, reflexo de um conceito de masculinidade ultrapassado. O resultado é mais frustração, insegurança, ressentimento e solidão.
Essa visão distorcida de mundo é irracional. E irracionalidade não é algo que o estoicismo defende.
Entender o que de fato significa ser estoico pode ser o caminho para muitos homens superarem suas crises. Para começar, recomendo ler livros sobre o tema, em vez de buscar informações em comunidades que tratam problemas complexos com soluções superficiais.
Imagem da capa: Freepik.


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