Por que os homens estão tão inseguros e o que a masculinidade tem a ver com isso?


Homem pensativo tomando café próximo ao mar.

Desde criança, ouvimos que devemos ser fortes, que “homem de verdade” não chora. De forma direta e indireta, aprendemos que ser homem é quase como ser invulnerável a diversas coisas.

Nossos pais, tios e avôs nos ensinaram sobre masculinidade. Nos mostraram o que são e o que não são coisas de homem.

Essas ideias continuam fortes. A internet está repleta de conteúdos que reforçam os conceitos de masculinidade aprendidos com nossos antepassados. Muitos influencers com milhões de seguidores reafirmam que homens devem ser fortes, assertivos e seguros.

No entanto, o que vemos é o contrário: os homens parecem estar cada vez mais inseguros por diversos motivos.

O que muitos ainda não percebem é que grande parte dessa insegurança é causada pela própria ideia distorcida de masculinidade.

A ideia que nos venderam sobre masculinidade é o ponto de partida de tudo.

Tendemos a pensar que “ser homem” é um conceito inerente a nós. No entanto, a masculinidade é uma construção social, um conjunto de regras que aprendemos.

Se olharmos para o passado, veremos coisas que eram consideradas masculinas antes, que não são hoje. Ou seja, o conceito de masculinidade foi mudando ao longo do tempo, embora muita coisa ainda se mantenha intacta.

Atualmente, somos ensinados a ser fortes, reprimir certas emoções e buscar poder. Essas mensagens criam o ideal do homem bem-sucedido, durão e sempre no controle.

O problema é que esse ideal é rígido e não aceita desvios. Além disso, é algo inalcançável, pois ninguém consegue manter-se forte o tempo todo.

Acima de tudo, esse ideal é desumano. Ele transforma emoções em fraquezas e nos condena a uma performance constante.

No fundo, muitos homens sabem o quanto isso é desgastante, mas não falam sobre. Afinal, falar sobre determinados temas e demonstrar certas emoções costuma não ser visto como algo masculino.

A repressão emocional alimenta nossa insegurança

Como já diz Pablo, em uma de suas canções: homem não chora. Crescemos com essa ideia na cabeça.

Desde cedo somos ensinados a reprimir diversos sentimentos. Medo, tristeza ou incerteza não são coisas que homens deveriam sentir. E se tais sentimentos ocorressem, não deveríamos demonstrá-los.

Crescemos vendo isso como uma forma de defesa. Se nos esforçarmos para esquecer e deixar de sentir algo, aquilo desaparece. Assim, podemos seguir em frente, firmes e fortes.

No entanto, muitas vezes, emoções reprimidas não desaparecem. Muitas vão acumulando e podem voltar com mais intensidade.

Essa repressão pode ter um custo psicológico elevado, que alimenta um ciclo de sofrimento.

Primeiro, vem a ansiedade: uma sensação constante de que algo está errado, sem conseguir nomear sua origem.

Depois, surge a raiva. Frequentemente, é a única emoção “permitida” ao homem. Por isso, medo, vergonha e frustração acabam explodindo como fúria. É uma válvula de escape tóxica, mas socialmente aceita por muitos homens.

Cresce o medo da inadequação. Se não posso falhar, se não posso parecer frágil, qualquer erro vira uma prova de que não sou “homem o suficiente”. Essa cobrança gera uma insegurança que pode nos acompanhar por toda a vida.

Como se isso já não fosse suficiente, as coisas pioram ao confrontarmos o conceito de masculinidade que aprendemos.

A crise da masculinidade atual amplifica a insegurança dos homens

Homem em um píer observando o mar.
Imagem: pikisuperstar no Freepik

Há séculos, existe a ideia de que o homem deve prover a família. Além disso, deve exercer autoridade no lar e na sociedade, ocupando uma posição de superioridade inquestionável, especialmente sobre as mulheres.

Esses são alguns pilares que sustentam a ideia de masculinidade que aprendemos. No entanto, eles estão em colapso, o que alimenta ainda mais a insegurança dos homens.

Hoje, vemos muitas mulheres independentes financeiramente e ocupando espaços de poder. Além disso, a sociedade está cada vez mais rejeitando a ideia de superioridade masculina.

Isso gera uma crise de identidade e até um vazio. O que aprendemos sobre masculinidade, que já era cheio de erros, não é mais aceito. Isso não se encaixa mais nas relações modernas.

O que nos disseram que define ser homem não faz sentido, na verdade, nunca fez. Afinal, mulheres conseguem executar diversos comportamentos que nos fizeram acreditar ser exclusividade dos homens.

Isso faz a mente de muitos homens entrar em colapso. Se o que antes era visto como exclusividade masculina deixa de existir, significa que não sou um homem de verdade?

Muitos homens não sabem lidar com essa realidade, o que os torna mais inseguros. Há quem reaja a tudo isso de forma agressiva, insistindo na demonstração de força, mas que, no fundo, é apenas mais um reflexo da insegurança.

A insegurança disfarçada de frieza, força e poder

Muitos homens não veem a insegurança como algo masculino. Por isso, quando ela ocorre, se esforçam ao máximo para disfarçá-la.

Esse disfarce assume a forma de frieza ou força, por exemplo, e ocorre de maneira consciente ou não. Trata-se de uma estratégia para evitar expor vulnerabilidades.

Vemos isso em várias manifestações comuns. Por exemplo, muitos homens mantêm-se frios e distantes emocionalmente para evitar que as pessoas vejam o que está escondido dentro de si.

Além disso, esse distanciamento é uma forma de evitar qualquer sentimento negativo que outra pessoa possa causar. Em muitos casos, isso parte da insegurança que se tem ao lidar com o outro.

No fundo, sabemos que é impossível se manter no controle o tempo todo. Então, alguns evitam certos vínculos que possam promover a exposição de suas vulnerabilidades.

Esses disfarces podem até parecer eficazes a curto prazo, ajudando a manter a fachada. No entanto, tornam-se exaustivos a longo prazo. Transformam a vida numa performance constante, onde qualquer falha é percebida como um risco.

Comparação, desempenho e validação externa

Manter a fachada de homem sempre seguro é ainda mais exaustivo quando isso é tratado como desempenho.

Para muitos homens, a autoestima não é um sentimento interior, mas uma métrica externa. “Ser bom o suficiente” significa vencer, conquistar, prover e superar. A identidade se confunde com o cargo, o salário, a forma física ou o número de conquistas.

As redes sociais amplificaram essa lógica ao extremo, criando um palco global para a masculinidade performática. A comparação, que antes era com o vizinho ou o colega, agora ocorre com um universo de ideais inatingíveis.

O resultado é uma comparação sem fim. O homem não se compara mais apenas com outros homens reais, mas com as melhores versões editadas de milhares de pessoas.

Essa comparação constante não gera motivação saudável. Ela alimenta a insegurança. A sensação é a de estar sempre atrás, de nunca estar completo.

O que podemos fazer para superar isso?

Entender que boa parte da nossa insegurança vem desse conceito antigo de masculinidade é o primeiro passo para superar o problema. Não se trata de rejeitar a masculinidade, mas redefini-la.

Devemos lembrar que o conceito de masculinidade mudou ao longo do tempo. Quebrar o que se entende por ser homem não significa que você precise se tornar um chorão, muito menos que deva ser uma pessoa afeminada, como muitos tentam nos fazer acreditar.

Simplesmente, devemos entender que não há problemas em demonstrar certas emoções e inseguranças. Afinal, é a partir disso que as pessoas crescem.

De que adianta bancar o forte, se por dentro você está destruído? Todo esse fingimento só aumenta o problema.

Ser forte não é sobre não chorar, mas sobre o que fazemos depois do choro. Encarar uma vulnerabilidade é o primeiro passo para sermos realmente fortes.

Além disso, devemos aceitar que a sociedade mudou. A quebra de estereótipos e o fato de mulheres estarem ocupando posições de poder não te faz menos homem.

Assim como nós, as mulheres querem um bom emprego. Elas também precisam prosperar e construir suas vidas. Afinal, quando certos problemas surgem, o homem dito provedor não pensa duas vezes em abandonar sua família.

A masculinidade é uma construção social, e muda conforme o tempo. Se apegar a certos estereótipos e viver performando é imaturo e desgastante.

Devemos parar de seguir regras rígidas e entender que existem diversos tipos de homens. Todos podem ser um brucutu de filme dos anos 90, e, ao mesmo tempo, demonstrar vulnerabilidades e sentimentos.

Alguns coaches vivem performando uma masculinidade tóxica e escondendo suas vulnerabilidades. Por outro lado, há bons exemplos de homens considerados másculos, que não escondem seus medos e vulnerabilidades, e ainda assim, são fortes e respeitados.

Imagem da capa: Freepik.


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